Enfrentando os Moinhos de Vento

João Camilo*

 












Em entrevista, Rosana de Mont’Alverne, presidente da Câmara Mineira do livro (CML) avalia o ano que passou e falar sobre as expectativas do ano que vem e sobre literatura.

RM: Dom Quixote, claro. Foi preciso muito engenho, criatividade, persistência e uma boa dose de idealismo que beirasse a loucura para ultrapassar as pedras do caminho. O ano de 2017 não foi para amadores, como diria a minha querida amiga, a escritora, educadora e contadora de histórias Hulda Matos, de sCML: Se você pudesse escolher um personagem literário para representar o ano de 2017, qual seria esse personagem? Por quê?audosa memória.

 

CML: Em 2017, além do apoio aos eventos literários, a CML trouxe de volta o Salão do Livro Infantil e Juvenil de Minas Gerais e lançou o Festival Livro na Rua. O que esses eventos trouxeram de positivo para a cultura de Belo Horizonte?

RM: O Salão do Livro Infantil e Juvenil de Minas Gerais, realizado no período de 15 a 20 de agosto de 2017, no Parque Municipal “Américo René Giannetti”, Centro de Belo Horizonte, foi um enorme sucesso de público e crítica. O curador da programação cultural foi o jornalista e premiado escritor mineiro Leo Cunha. Com os patrocínios do Hospital Mater Dei e do Banco Mercantil do Brasil, via Lei Municipal de Incentivo à Cultura; do apoio cultural do SESC MG, além das parcerias com a Fundação Municipal de Cultura, a Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura de BH e com o Governo de Minas, por meio de suas Secretarias de Educação e da Cultura e da CODEMIG, conseguimos realizar o maior evento literário do ano dedicado à infância e à juventude. Para se ter uma ideia, em função da não realização do evento em 2015 – auge da crise política, econômica e financeira no país – fizemos duas edições simultâneas em 2017. O Salão é um dos dois mais importantes eventos do setor no Brasil, sendo o outro o Salão da FNLIJ, no Rio de Janeiro. Ambos começaram a ser realizados no ano 2000 e possuem inquestionável relevância para as cadeias criativas e produtivas do livro infantil e juvenil, para a economia do livro, além, é claro, para a formação de leitores e promoção da leitura. O Salão, a meu ver, tem de ser tratado como política pública de estado e constar dos calendários culturais da Prefeitura de BH e do Governo de Minas. Não podemos falar da consolidação da cultura literária no estado sem passar pelo fortalecimento da literatura infantil e juvenil, a ampliação de seu acesso, a formação de mediadores de leitura e sem considerar o debate sobre LIJ, infância, juventude, cidadania e cultura. Já o Festival Livro na Rua, realizado pela primeira vez pela CML na capital, em setembro deste ano, com patrocínio da UNIMED BH, do BDMG e apoio do SESC MG, buscou – e acredito que conseguiu – destacar, promover e valorizar as livrarias de rua, verdadeiros pontos de cultura onde se formam leitores. Concordo plenamente com a afirmativa do curador da programação do Festival, José Eduardo Gonçalves, “livrarias são territórios cheios de significado, carregam valores que devem ser cultivados, são expressões de confiança no gênero humano”. É bom lembrar que o Festival Livro na Rua contemplou também a participação das editoras alternativas que tanto contribuem para a bibliodiversidade e também dos autores independentes, os criadores de zines e os tipógrafos. Ou seja, a CML ampliou o seu raio de atuação para incluir, de fato, todos os atores das cadeias criativas e produtivas de obras literárias. A Câmara Mineira do Livro, OSCIP atuante há 47 anos, vem fazendo sua parte, vencendo obstáculos gigantescos, mas com a ajuda de excelentes e imprescindíveis parceiros vimos conseguindo colocar nossos blocos na rua.

 

CML: Além da Presidência da CML, você também é a titular do segmento Literatura no CONSEC – Conselho Estadual de Política Cultural de MG e uma das coordenadoras do Plano Estadual do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca de Minas Gerais. Como você avalia essa frente tripla que você assumiu em prol da Literatura em Minas Gerais? Quais avanços que tivemos neste ano?

RM: Inúmeros. Conseguimos, após 18 meses de intenso trabalho, entregar à Assembleia Legislativa um Plano Estadual do Livro consistente, plural e democrático na sua elaboração, que contém políticas públicas que contemplam a democratização do acesso ao livro; o fomento à leitura e à formação de mediadores; a valorização institucional e incremento do valor simbólico do livro e da leitura, além do desenvolvimento da economia do livro. Quanto a este último eixo, destaco a previsão legal de editais para aquisição de obras literárias, apoio financeiro a Feiras e Festivais Literários por todo o estado, incentivos à criação de livrarias na capital e no interior, etc. O CONSEC – que agora tem a Presidente e um Diretor da CML como titular e suplente do segmento Livro, Leitura e Literatura – teve um papel fundamental para a não interrupção dos trabalhos, articulando os apoios da Assembleia Legislativa e Secretarias de Estado da Cultura e Educação. Participar ativamente dessa frente tripla de trabalho permitiu que a Câmara Mineira do Livro tivesse reconhecida a sua importância como órgão representativo da cadeia produtiva do livro. A presença ativa da CML consolidou o entendimento de que deve ser ouvida sempre que se discutir qualquer proposta relativa a este importante segmento da economia mineira.

 

CML: As polêmicas que têm afetado o mundo da arte não deixaram a literatura de lado, com livros e autores sofrendo perseguições, além de programas governamentais de aquisição de obras literárias sendo interrompidos em 2017. O mundo está ficando mais chato ou está ficando mais intolerante?

RM: Nem uma coisa, nem outra, a meu ver. Penso que vivemos um momento no país de grande retrocesso das políticas governamentais para o livro e a literatura e também um certo crescimento de posturas radicais à direita. Quanto a livros e autores “perseguidos”, é bom notar que alguns temas, ainda que não façam apologia a nada inapropriado, vêm sofrendo ataques de uma pequena parcela da sociedade. Veja-se, por exemplo, o recolhimento, pelo MEC, de mais de 80.000 exemplares do livro “Enquanto o sono não vem”, de José Mauro Brant, editora Rocco Jovens Leitores. O livro traz um conto intitulado “A triste história de Eredegalda”, considerado impróprio por abordar o tema da sugestão do incesto (diga-se de passagem, jamais concretizado), que pôs em xeque um antigo conto de fadas de Perrault – “Pele de Asno” – no qual foi inspirado. Daí a importância de nos posicionarmos contra esse tipo de censura, pois uma obra literária de qualidade atestada pelo Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita da UFMG (CEALE) foi banida numa canetada pelo Ministro da Educação após a grita de pessoas que, a meu sentir, desconhecem o que é mediação de leitura e como as crianças percebem uma história como essa. Minha neta Manuela, de 11 anos, leu Pele de Asno aos 8 e entendeu perfeitamente. Os contos de fadas sempre trataram temas complexos e de difícil abordagem no discurso direto dos adultos, daí sua importância como verdadeiras “vacinas” que preparam as nossas crianças para enfrentar esse mundo cruel. O que me parece é que há muita precipitação e decisões equivocadas tomadas ao sabor de pressões políticas. Isso não combina com literatura e nem com o processo educacional que se pretende preparar cidadãos para um mundo diverso, democrático e plural. Quanto aos bem sucedidos programas governamentais de aquisição de obras literárias para a infância e a juventude, como o PNBE, tristemente interrompidos pelo Executivo Federal, ressalto a importância da luta pela sua retomada, como vêm fazendo a CBL e a CML. Afinal, tenho repetido à exaustão: as políticas públicas para o livro, a leitura e a literatura devem ser permanentes. Precisamos de políticas de estado, não de governos; vale dizer, não podemos ficar dependentes do humor de eventuais mandatários nem de grupos religiosos fundamentalistas.

 

CML: 2018 é o último ano deste seu mandato. Qual é a expectativa que você tem para esse ano e o que você desejaria ver construído neste último período?

RM: Vou continuar trabalhando para que todas as propostas e projetos dos quais a CML participa se consolidem em 2018. Desejo ver sancionada a Lei que institui o Plano Estadual do Livro; a consolidação da política pública da Visitação Escolar a Feiras e Festivais Literários com distribuição do Vale-Livro para estudantes e professores das redes estadual e municipal de ensino; a adoção dessa política por outros municípios mineiros; a ampliação do quadro de associados da CML em todos os segmentos: livreiros, distribuidores e editores; a adoção, pelos órgãos próprios dos municípios mineiros, de edital para compra de livros; a inclusão oficial do mercado do livro, pelo Governo do Estado via CODEMIG, como segmento da economia criativa, o que proporcionará a ampliação da oferta de incentivos e fundos para a realização de feiras, festivais e bienais; a aproximação dos autores e editores independentes; a inclusão da CML no rol das OSCIP’s que recebem subsídios para sua manutenção, o que permitirá a ampliação de seus relevantes serviços para o setor; o fortalecimento do Bibliominas de modo a permitir sua extensão para um número bem maior de municípios do estado; a efetivação do Catálogo Autorias da Diversidade da Secretaria de Estado da Educação de MG e, finalmente, a consolidação do novo modelo da Bienal que agora passa a se chamar Bienal Minas do Livro e da Leitura, que não se trata de uma simples mudança de nomenclatura, mas de escopo: a partir de agora sustenta-se em dois pilares fundamentais, indissociáveis e em consonância com as políticas públicas de estado que são o LIVRO E A LEITURA. Ah, com os recursos obtidos pela primeira vez via Fundo Estadual da Cultura de MG, quero ver a sede da CML com mobiliário e equipamentos novos que atendam adequadamente às suas necessidades.

 

CML: Final de ano é época de listas? Quais foram as leituras que você fez esse ano e que indicaria para os nossos leitores?

RM: Boa pergunta! Indico “O livreiro”, de Pedro Herz, editora Planeta; “Pensar a Leitura: complexidade”, organização de Eliana Yunes, Edições Loyola; “Contando histórias, formando leitores’, de Ana Maria Machado e Ruth Rocha, editora Papirus; “Dias de abandono”, de Elena Ferrante, editora Biblioteca Azul e, claro, procurem, dentre os livros lançados pelas editoras associadas à CML. Os leitores ficarão surpresos positivamente com o alto nível dos títulos lançados por editoras mineiras em 2017. Finalmente, quero registrar que nada disso teria sido possível sem o apoio da Diretoria da CML, dos associados e da diminuta e ao mesmo tempo poderosa equipe que está junto conosco: você, João Camilo, responsável pela Comunicação, e Lubiana Mol, Assistente Executiva da Câmara Mineira do Livro. Sigamos juntos.

Por João Camilo, responsável pela Comunicação da CML
Foto: Ignácio Costa